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Retrospections O Antropoceno: A Humanidade Como Um Ponto de Mutação Para a Terra
 
O Antropoceno: A Humanidade Como Um Ponto de Mutação Para a Terra
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Climate
Posted:   06/24/13
Author:    Bruno Martini

Summary: Nesta entrevista o Dr. David Grinspoon discute as implicações do Antropoceno - uma escala de tempo definida como a humanidade sendo uma força geológica a modificar a paisagem global e a evolução do nosso planeta.


Mapa esquemático espiralado da escala de tempo na Terra.
O Antropoceno é o nome de um novo intervalo de tempo geológico proposto (provavelmente uma época) que pode logo entrar na Escala de Tempo Geológico oficial. O Antropoceno é definido pela influência humana na Terra, onde nós nos tornamos uma força geológica a moldar a paisagem global e a evolução do nosso planeta.

De acordo com esta teoria, a presente época – ainda conhecida como o Holoceno, que começou há 11 mil anos atrás – teria terminado em algum momento entre o final do século XVIII e os anos de 1950 (quando o Antropoceno começou). O limite de tempo mais antigo considera o aumento da quantidade de dióxido de carbono e outros gases estufa na atmosfera da Terra que são na majoritariamente devidos à queima de combustíveis fósseis por energia para abastecer nossa tecnologia industrial crescente.

Podemos considerar este processo como tendo iniciado em 1784 com a invenção da máquina a vapor por James Watt. Os presentes altos níveis de gases estufa em nossa atmosfera estão provavelmente causando a mudança climática para um longo período quente. O último período de tempo leva em consideração o aumento da radiação de fundo pelos testes nucleares feitos pelos militares dos EUA e URSS durante o início da Guerra Fria.

Esta nova fronteira na linha do tempo geológico tem o potencial de ser mais precisamente definida que qualquer outra antes, devido à sua ocorrência recente. Está também apoiada em crescentes evidências da influência humana em processos naturais globais, como o transporte de sedimentos sendo suplantado por nossos processos de construção; ocupação e transformação do solo; desvio do curso das águas e apropriação dos reservatórios de água; extinções em massa e introdução de espécies em novas regiões; desenvolvimento e amplo uso de substâncias químicas anteriormente inexistentes (ex: plásticos e poluentes orgânicos persistentes) e mesmo a criação de novos elementos (os últimos 20 na tabela periódica).

Nesta entrevista o Dr. David Grinspoon, detentor da Cadeira Baruch S. Blumberg de Astrobiologia da Livraria do Congresso dos EUA e Curador de Astrobiologia do Museu de Denver de Natureza & Ciências (Denver Museum of Nature & Science), fala sobre o livro que ele está escrevendo sobre o Antropoceno sob a perspectiva da astrobiologia.



Pergunta: O conceito do Antropoceno está lentamente emergindo na ciência devido aos comentários de Antonio Stoppani em 1873 (a era Antropozoica), Le Conte em 1879 (Psicozoico), Pavlov em 1922 (Antropogeno) e Verndsky em 1962 (Noosfera). Eugene Stoermer e Paul Crutzen formalmente abordaram o conceito e introduziram o termo Antropoceno no título do seu artigo para a Global Change Newsletter em 2000. Você poderia nos dizer quando e como você se envolveu com o tópico?

A atividade humana na Terra está modificando o planeta. Crédito da imagem: EPA/Belinda Rain.
David Grinspoon: É um tópico em que eu tenho me interessado há muito tempo. Mesmo quando criança fascinado com a ficção científica, eu me perguntava sobre o papel das pessoas na evolução em longa escala da Terra, o futuro distante e o destino da humanidade. E pensar sobre vida avançada em qualquer outro lugar do Universo também nos leva de volta a imaginar quanto tempo uma civilização pode durar, o que levanta as mesmas questões. Na minha tese de doutorado, escrita em 1989, eu discuti o fato de que quando uma civilização desenvolve a tecnologia para prevenir impactos catastróficos de asteroides, isto marca um momento significativo na evolução do planeta. E o livro que estou escrevendo agora, eu realmente comecei antes mesmo de terminar meu último livro em 2003. É uma sequência natural porque no fim daquele livro eu especulei sobre o que o surgimento de “inteligência” e “civilização” significam para a Terra e outros planetas. Então, mesmo o Antropoceno sendo um termo popular recente para este conceito, eu tenho pensado e escrito a respeito por mais de 20 anos. Eu estou tão feliz que isto esteja se tornando um tópico tão central de discussão nos mundos da ciência, política e ativismo ambiental. Já é hora!

P: Quais devem ser consideradas as marcas geológicas do Antropoceno?

DG: Há um bom número de sugestões razoáveis para isto, mas minha favorita é a assinatura dos primeiros testes de bombas atômicas. Isto produz uma assinatura em ambos os termos isotópicos e de estruturas geológicas que não podem ser interpretados de outra forma. E o simbolismo é tão poderoso – o momento em que agarramos aquele terrível fogo de Prometeu que, sem controle, poderia consumir o mundo. Agora, é verdade que os humanos estavam alterando a Terra antes desta época, como vários cientistas já apontaram – por exemplo o uso da terra, agricultura, urbanização e dióxido de carbono atmosférico. Mas, você sabe, outras espécies surgiram e mudaram o mundo antes e nós não nomeamos uma época geológica após cada uma delas. O que é realmente diferente agora é que estamos conscientes do nosso papel no mundo sob mudança. Ou potencialmente conscientes – alguns de nós pelo menos. Então, para mim, independente de como você define o Antropoceno, aqui é quando isto fica interessante – é quando a massa da humanidade começa a acordar para o nosso papel no mundo em mudança. E após a Bomba, certamente após Hiroshima, nós não podíamos nos ver da mesma forma com a nossa tecnologia modificadora do mundo.

Bombas nucleares deixam assinaturas isotópicas e estruturas geológicas distintas. Crédito da imagem: Departamento de Energia dos Estados Unidos (US Department of Energy).
P: Quão provável é a possibilidade de que estamos agora vivendo o sexto evento de extinção em massa do planeta? Ela já é suficientemente grande para ser detectada em um esforço futuro de paleontologia usando nossos métodos e capacidades de investigação atuais?

DG: Eu ouvi diferentes opiniões sobre se a sexta extinção já está ou não assegurada a este ponto, mas de qualquer forma é óbvio que estamos tendo um impacto significativo na evolução da vida neste planeta e muitas espécies não sobreviveram, ou não sobreviverão à nossa presença aqui. Nosso impacto será detectado pelo resto da história do nosso planeta. Por exemplo, está claro que os recifes de corais existentes no nosso planeta não sobreviverão ao nosso impacto. Nós iremos perdê-los. Isto é inevitável agora por conta da acidificação mesmo no melhor dos cenários. É um pouco reconfortante saber que os recifes já desapareceram antes, devido a episódios passados de acidificação e eles retornaram. Então eles poderão estar de volta no futuro, mas haverá um tempo sem recifes de coral na história da Terra que será sempre rastreável para as ações que estamos tomando agora.

P: Você acredita que o Antropoceno deveria ser classificado como uma nova época geológica dentro do período Quaternário, ou ele se enquadra em uma escala de tempo mais longa? Pode o estabelecimento do período geológico do Antropoceno incluir a época atualmente conhecida como Holoceno?

DG: Uma pergunta interessante sobre o Antropoceno é quanto ele durará. Geologicamente este será um evento como a fronteira K/T, uma época como o Paleoceno, ou uma transição como a origem da vida? Eu acho que ele será um curto evento registrando o experimento falho da nossa, assim chamada, civilização ou ele será uma transição para um novo planeta inteiramente novo no qual a vida inteligente possui um papel permanente no gerenciamento do planeta. Mas se o chamarmos de uma época, ela representa uma ambição para nossa espécie que está em algum lugar entre estes dois extremos e talvez isto seja o suficiente no momento.

“Este livro destina-se a oferecer o que eu espero ser um romance sobre o capítulo humano na história da Terra, revelando a estória mais profunda sobre os desafios e conflitos ambientais que estamos enfrentando agora. Na inaugural Cadeira de Astrobiologia da Livraria do Congresso dos EUA, eu estou sendo financiado por um ano para pesquisar e comunicar uma visão do papel humano na Terra, informado por uma perspectiva cósmica. Vou retratar nosso planeta, esta problemática, mas promissora esferinha azul, como visto pelas lentes da astrobiologia, provendo uma visão que lança nova luz na origem e perspectivas futuras da raça humana. A planetologia comparativa, nascida na era espacial, nos permite ver nosso planeta inteiro e em nítido contraste com os seus mundos irmãos sem vida, proporcionando uma visão clara de como a vida, e agora a inteligência, mudaram a Terra. O campo do SETI, a busca por inteligência extraterrestre, tem há muito tempo se preocupado com a potencial longevidade de civilizações técnicas em qualquer outro lugar da galáxia – um fator-chave nos cálculos da número de espécies comunicativas com as quais podemos ser capazes de fazer contato. Aqui eu irei voltar o telescópio novamente para nosso próprio planeta, mostrando como a visão cósmica, interplanetária pode prover um olhar novo e expansivo, com um certo distanciamento saudável, em nossos dilemas atuais e assim, tentar reformular nossos dilemas atuais como parte de uma narrativa da evolução planetária, uma saga que já atingiu o seu momento crucial, quando a história geológica e humana se tornaram irreversivelmente siamesas. O quão bem sucedidos estamos sendo ao abraçar esta nova realidade acabará por determinar se a humanidade poderá prosperar.”
-- Dr. David Grinspoon.
P: Como você coloca as chances do Grupo de Estudo do Antropoceno – estabelecido em junho de 2009 – de não convencer a Comissão Internacional de Estratigrafia (International Comissiono on Stratigraphy – ICS) no seu encontro em 2016 de adicionar a época do Antropoceno na Escala de Tempo Geológica.

DG: Eu não sei. Para ser honesto eu não tenho acompanhado isto tão de perto. Isto realmente não é tão interessante para mim, se ele será ou não formalmente adotado como parte da escala de tempo geológica. No que eu estou interessado são as discussões em curso a respeito do Antropoceno e o que isto significa para nos ver como parte história geológica da Terra. Essas discussões continuarão independente do que esta comissão decidir.

P: Nós podemos agora observar o papel de espécies exóticas em muitos habitats pelo mundo, normalmente desequilibrando a ecologia local de onde elas são introduzidas pelo homem. Você vê o crescimento do desenvolvimento e uso de organismos transgênicos, nano-robôs e mesmo vida artificial (sintética) como possíveis fatores-chave a influenciar o futuro próximo da biota da Terra?

DG: Sim, certamente. Como você apontou, nós já iniciamos um tipo de força desequilibradora sem precedentes na evolução biológica através do nosso transporte intencional e inadvertido de espécies por todo planeta. Com estas novas tecnologias nós teremos a capacidade de afetar de forma muito mais dramática os mecanismos da evolução.

P:Se a humanidade fosse extinta (ou reduzida a quase este ponto) hoje, quais seriam os efeitos de larga escala para a Terra em um futuro sem manutenção continuada em todas as nossas instalações nucleares, de guerra biológica e laboratórios de controle de doenças?

DG: O colapso das instalações nucleares levaria a alguns distúrbios locais por um longo tempo, mas eu não acredito que haveriam outros grandes efeitos globais disto. Eu penso que a maior assinatura seria a perturbação no ciclo do carbono que levará dezenas de milhares de anos para ser reparado. O oceano será acidificado por uma escala de tempo similar com efeitos massivos nos recifes e outros biomas. O ciclo hidrológico gradualmente retornará ao normal após as represas romperem.

P: Como você vê a possibilidade do Antropoceno marcando um período quando a humanidade não apenas se tornou uma força geológica na Terra, mas também começou a alcançar os outros corpos do Sistema Solar como um primeiro passo para expandir largamente sua zona de influência?

Eugene Filmore Stoermer (07 de março de 1934 – 17 de fevereiro de 2012).
DG: Eu não vejo isto como uma coincidência, que a grande aceleração das influências do Antropoceno na Terra vieram durante as mesmas décadas que nossa primeira exploração de outros planetas. Tudo isto representa uma certa fase no nosso desenvolvimento tecnológico – eu quae disse “maturação”, mas eu não acredito que possamos fazer esta alegação ainda. É a mesma onda de avanços tecnológicos que nos permitiu fazer mísseis nucleares, realmente expandiu o globo com as telecomunicações, o comércio e a rápida expansão industrial, desenvolveu a capacidade de monitorar nosso próprio planeta a partir de sua órbita e também lançou espaçonaves para outros planetas. Espera-se que a perspectiva e sabedoria adquirida pela exploração de outros planetas e vista do nosso planeta como um todo, a distância, facilitará as mudanças no comportamento e ponto de vista. Teremos de sobreviver a esta precária transição que estamos experimentando – a transição de ser uma espécie tecnológica auto-consciente com a capacidade tanto de destruir nossa própria civilização ou assegurar nossa sobrevivência em longa escala temporal. Eu penso que será um ou outro, eu não acredito que será algo intermediário. Eu não acho que vamos escapar de alguma maneira. Estamos encarando uma escolha onde nós iremos nos tornar um novo tipo de entidade nesta Terra, ou morrer tentando.



Nota do autor:
Este artigo é um tributo a Eugene F. Stoermer, que cunhou o termo Antropoceno nos anos de 1980 e que é uma inspiração para toda uma legião de novos pesquisadores (eu falo como um dos seus fãs do Brasil). Eu ofereço meus pêsames a toda sua família e amigos.

This article was originally published in English.

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