Causa para Otimismo: Parte III

A equação de Drake foi desenvolvida como um meio de prever a probabilidade de detectar outras civilizações inteligentes na nossa galáxia. No fórum, Frank Drake, que formulou a equação há 42 anos, moderou um debate entre Peter Ward e David Grinspoon.

Dr Grinspoon é o cientista chefe do departamento do departamento de estudos espaciais no Southwest Research Institute (Instituto de Pesquisas do Sudoeste) em Boulder, EUA, e ele é o autor de Venus Revealed (Vênus Revelado) e do em breve a ser lançado Lonely Planets: The Natural Philosophy of Alien Life (Planetas Solitários: A Filosofia Natural da Vida Alienígena).

Nesta parte da série, o Dr Grinspoon responde aos comentários do Dr. Ward, explicando porque ele é otimista sobre a possibilidade de fazermos contato com extraterrestres inteligentes.

Na parte I desta série, o Dr. Drake discutiu a história e conteúdo da equação de Drake. Na parte II Peter Ward argumentou que o contato com extraterrestres inteligentes é improvável. As partes IV e V apresentarão o período de perguntas e respostas que seguiu os comentários de abertura pó Drake, Ward e Grinspoon.

Partes 1 * 2 * 4 *5

mars_vegetation
” “Cientistas sérios acreditaram que havia vida… pelo menos vegetação em Marte.” – David Grinspoon. Crédito: NASA/JPL/Malin Space Science Systems
Credit: NASA/JPL/Malin Space Science Systems

David Grinspoon: Antes de tudo, estou contente de estar aqui e honrado em dividir o palco com Frank Drake e Peter Ward. Frank Drake tem sido meu herói, eu tenho de dizer, desde que eu tinha uns oito anos de idade, ou seja lá quando eu adquiri a sofisticação para entender aquilo que ele faz. Eu apenas pensei que era o mais legal. E eu ainda acho.

E é claro, Peter Ward, o autor de Rare Earth (Terra Rara), e eu tenho de dizer que eu acho um livro maravilhoso. Eu recomendo totalmente que todos vocês o leiam, se ainda não o fizeram. Ele possui algumas ótimas descrições de uma ciência realmente pura e uma descrição muito atual de muito do que sabemos sobre a história da Terra e a história da vida na Terra.

Eu discordo em alguma extensão com algumas das implicações de todo esse conhecimento que podemos tirar para a vida no Universo mais amplo, e eu acho que é sobre isto que falaremos daqui a pouco. Mas é certamente bem argumentado e bem escrito e eu acho que Ward e Brownlee nos fizeram a todos um favor em instigar o que eu chamaria de uma reação anti-copernicana menor. Há este desejo de acreditar que estamos conectados com o Cosmos e que há muita vida lá fora. Pessoalmente, eu acho que há também razões racionais para acreditar nisto. Mas nós não queremos acreditar nisto apenas por conta de um pensamento esperançoso e então é ótimo ter alguém que venha e desafie esta visão.

Pensando sobre os 40 anos de avanço em nosso conhecimento – ou agora eu acho que tenha 42 anos – desde que Frank Drake escreveu pela primeira vez a equação de Drake no quadro em Green Bank, o que nós realmente aprendemos que é novo e diferente desde aquela época, que realmente lança luz sobre esta questão? Em minha mente há três desenvolvimentos. Há muitos mais, mas há três que vêm à mente que são significantes. E um, eu acho, é em certo sentido negativo em relação às perspectivas de inteligência extraterrestre, e os outros dois são positivos.`

O que eu diria ser talvez levemente negativo, é que no começo dos anos 60, havia mais otimismo sobre vida em nossos vizinhos imediatos no nosso Sistema Solar do que há agora. Era amplamente aceito por cientistas sérios que havia vida em Marte, que havia pelo menos vegetação em Marte. Você pode encontrar artigos escritos nos anos de 1950 e início dos 1960, que sugerem que as marcas que vocês podem ver mudando na superfície de Marte – e, aliás, esta é uma semana muito, muito boa para vê-las, como eu tenho certeza que vocês já leram, e espero que tenham visto. – poderiam ser de vegetação, como muitos acreditavam. E mesmo Vênus, que é claro, agora nós todos acreditamos ser como o inferno, por conta dos resultados de maravilhosos 40 anos de exploração planetária que nós tivemos, pensava-se naquela época ser talvez um amigável planeta aquoso. Então nossa exploração planetária tem sido um pouco sóbria quanto às nossas esperanças por vida na nossa vizinhança imediata.

europa_ocean
Oceano de Europa. Crédito: NASA/JPL/University of Arizona..
Credit: NASA/JPL/University of Arizona

Mas depois, é claro, enquanto você vai um pouco mais longe, como Frank mencionou, há a descoberta de um oceano em Europa e a ampliação das nossas visões sobre o que tipos de planetas poderiam sustentar vida. Então isto vai em ambas as direções.

Mas há outros dois desenvolvimentos que eu acredito serem os mais significantes, com relação ao que realmente mudou em 42 anos. Primeiro de tudo, nós encontramos planetas orbitando outras estrelas. Nós sabemos que eles estão lá. Nós não sabemos muito sobre eles ainda. Nós apenas encontramos aqueles que são fáceis de ver, que como Frank mencionou, são aqueles que nós sabemos que não serão como a Terra. E ainda falta, de longe, a maioria das estrelas – nós não temos ideia se elas possuem ou não planetas. Então há ainda mais que nós não sabemos, muito mais, sobre planetas extrassolares.

E através da próxima década e décadas, se tornará muito empolgante enquanto a imagem demográfica destes planetas se esclarece. Mas não importa o que venha, eu acredito que temos de ver este desenvolvimento como muito, muito encorajador para as perspectivas de vida extraterrestre, e eu diria de inteligência extraterrestre também. Os planetas estão lá fora.

E então, finalmente, há tanto que já aprendemos sobre a vida na Terra. Em particular, vocês ouviram sobre as extremófilas. Quanto à faixa de condições em que a vida pode existir na Terra, não tínhamos a menor ideia – novamente no início dos anos 60, quando a equação de Drake foi formulada – sobre este incrível conjunto de estratégias de sobrevivência que os organismos na Terra desenvolveram, em termos dos tipos de combustível que eles podem usar, o que eles podem comer, o que podem respirar, os tipos de temperaturas, pressões e acidez em que podem sobreviver.

E novamente, eu acredito que este é um desenvolvimento muito encorajador. Ele nos diz que a vida é ainda mais tenaz, adaptável e esperta – não esperta em um sentido intencional, mas esperta em termos de capacidades para resolver problemas da evolução por seleção natural. E vocês sabem que nós ainda não chegamos perto do fundo deste poço. Nós ainda estamos descobrindo extremófilas, vida extrema na Terra, que nos surpreende quanto à faixa de ambientes em que podem viver. E isto tem de ser uma indicação esperançosa dos tipos de ambientes onde a vida pode sobreviver no Universo.

Agora, quanto à hipótese da Terra rara, deixe-me dizer por que eu não concordo completamente com o tipo de conclusão pessimista que foi proposta a respeito disto.

rare_earth
A Hipótese da Terra Rara publicada por Peter Ward e Donald Brownlee no seu livro, Rare Earth (Terra Rara), sugere que planetas como a Terra contendo vida complexa (animal) como a conhecemos são provavelmente bem raros no Universo. Crédito: NASA CERES Project / Amazon.com

Peter Ward: Você fez alusão à hipótese da Terra Rara. Brownlee e eu simplesmente dissemos que acreditamos que a vida está espalhada, é quase universal, considerando naquela época que a vida evoluiu facilmente. Mas que a vida complexa seria quase impossível de se encontrar. Ou em níveis muito, muito mais baixos.

David Grinspoon: Certo, obrigado. Então a ideia de que a vida simples será mais espalhada que a vida complexa no Universo é meio óbvio. É quase uma tautologia. Se você definir vida complexa como algo que algumas vezes evolui de vida simples e algumas vezes não o faz, então é uma tautologia. É um pouco como dizer que há mais glandes (fruto do carvalho) do que carvalhos. Quero dizer, nós todos concordamos que é mais provável haver vida mais simples do que vida mais complexa.

A verdadeira questão é: Qual a razão? Em termos daqueles fatores que o Frank descreveu, quais são os fatores fi e L? Por isso, só fica interessante quando você quantifica um pouco. Caso contrário, é óbvio.

Que tipo de conclusão podemos tirar sobre a história da vida na Terra? Em Terra Rara, muito é feito dos vários eventos históricos que aconteceram com a Terra e das várias características da Terra que parecem ser incomuns. A Terra possui uma grande lua; a maioria dos planetas não possui uma grande lua. Há vários aspectos em que nossa grande lua está relacionada com a história da vida aqui. A Terra possui um clima particular, possui placas tectônicas e assim em diante. E em minha mente, não há dúvida de que todos esses, que eles chamam de fatores da Terra rara, estão intimamente relacionados com a evolução da vida e a evolução da vida complexa na Terra.

Mas eu acho que há uma falácia lógica que cometemos quando olhamos para essa história e dizemos: apenas com este conjunto de circunstâncias poderíamos ter ascendido em um planeta com vida complexa. Eu penso que vocês podem imaginar vários tipos de histórias planetárias diferentes que são muito, muito diferentes da história da Terra, com diferentes tipos de contingências históricas improváveis e vida complexa ascendendo naquele planeta e pela primeira vez olhando ao redor e para trás na história do seu próprio planeta e dizendo, “Bem, veja todas estas coisas improváveis e aqui estamos. Por isso, claramente apenas em um planeta como este você pode ter vida complexa”. Então o fato de um conjunto de circunstâncias complexas e aparentemente improváveis levarem à vida complexa em um planeta, não significa que o mesmo conjunto de circunstâncias tem de ocorrer.

moon
De acordo com Grinspoon, fatores para a Terra rara (como nossa grande lua) são intimamente ligados à evolução da vida complexa na Terra. Crédito: NASA.

Se vocês realmente comprarem que é preciso ter uma lua como a Lua da Terra e que tem de ter um planeta do mesmo tamanho, com o mesmo tipo de estoque de água e todas estas coisas devem estar muito bem afinadas, então eu penso que vocês fizeram o caso para que a vida complexa seja muito mais rara. Mas eu penso que nós simplesmente não sabemos isto.

Outra coisa que vale a pena considerar é o papel da própria vida em moldar a Terra e na maneira que a Terra é. A vida não está apenas de passeio na Terra. A história da Terra e seu ambiente é uma interação complexa entre as partes vivas e não vivas do planeta. É um dar e tirar. A vida tem sido um dos principais fatores na determinação da composição da atmosfera e dos oceanos. Até mesmo, eu acredito que vocês podem argumentar que, coisas como placas tectônicas, em longo prazo, estão relacionadas à existência de vida e seus efeitos na hidrosfera e na atmosfera e daí em diante. Está tudo relacionado.

Eu penso que de uma forma a hipótese da Terra rara, pelo menos levada a um extremo, poderia ser chamada de hipótese de Pangloss, em honra ao personagem de Voltaire, o Dr. Pangloss, que disse que todas as coisas têm de ser como são neste, o mais perfeito de todos os mundos. Eu acredito que a hipótese da Terra rara pende um pouco para alegações de que este é o mais perfeito dos mundos e que se vocês variarem quaisquer destes fatores, vocês teriam um planeta menos habitável.

O fato é, nós não sabemos se a Terra é ótima para a vida, ou para a vida complexa. A Terra talvez não ser um planeta tão excelente para a vida complexa parece quase uma coisa herética a se dizer, mas nós não temos ideia se este é o planeta perfeito para a vida. Se você alterar alguns destes fatores, se a Terra fosse um pouco maior, tivesse um pouco mais de água, estivesse em um sistema estelar diferente com um Júpiter maior ou um Júpiter menor, então teríamos uma taxa de impactos diferente, afetando a taxa de extinções e a evolução, a vida poderia ter procedido muito mais rapidamente. Poderia ter existido vida inteligente na Terra depois de 2 bilhões de anos. E agora, quem sabe o que poderia estar aqui?

Então eu acredito que toda a noção de que a história da Terra é de alguma forma otimizada para a vida complexa e não pode ser nada melhor que isto – para mim parece como o pensamento pré-copérnico. [Então eu acredito que precisamos] ficar longe deste preconceito de assumir que se um planeta não é como a Terra, em uma destas várias formas, então isto irá significar que ele é menos provável de ter vida complexa. Isto pode fazer dele mais provável de ter vida complexa.

This story was originally published in English.

Publication of press-releases or other out-sourced content does not signify endorsement or affiliation of any kind.