O SETI e a Busca por Vida

Extraído do testemunho escrito submetido por Christopher F. Chyba, do Instituto SETI (SETI Institute), para as audiências mantidas pelo House Subcommitee on Space and Aeronautics (Subcomitê da Casa sobre o Espaço e Aeronáutica) de 12 de julho de 2001.

Durante a última década, houve um renascimento do estudo científico da vida em qualquer outro lugar no Universo. – e por razões muito boas. Nós aprendemos que moléculas orgânicas – o tipo de moléculas baseadas em carbono na qual toda a vida na Terra é baseada – são abundantes não apenas no nosso Sistema Solar, mas através do espaço entre as estrelas. Elas provavelmente estão presentes em muitos outros sistemas estelares também.

Europa
Europa é um dos focos primários na busca por vida no Universo.
Crédito: NASA

Nós estamos começando a descobrir que outros planetas estão lá fora. Enquanto ainda não podemos detectar sistemas estelares como o nosso próprio, pelo menos sabemos que planetas não são raros. Minha própria suspeita é que todo tipo de sistema estelar que pode haver lá fora, estará lá fora. Nosso sistema estelar provará não ser comum e nem raro, mas ao invés disto apenas um exemplo de uma ampla variedade de possibilidades.

Dentro do nosso Sistema Solar nós temos mais e mais evidência de outros mundos com água líquida, que é um ingrediente essencial para a vida como a conhecemos. Água parece ter fluído na superfície marciana no passado geologicamente recente. Há agora forte, apesar de ainda indireta, evidência para um segundo oceano em nosso Sistema Solar abaixo do gelo da lua de Júpiter, Europa – a evidência das missões das espaçonaves Voyager (Viajante) e Galileo aponta para um oceano cujo volume é quase o dobro de todos os oceanos da Terra combinados. Se quisermos procurar por vida no nosso Sistema Solar, a importância de Europa dificilmente pode ser exagerada. No entanto, ainda mais surpreendente, há agora evidência para oceanos subsuperficiais abaixo do gelo de duas das outras maiores luas de Júpiter, Ganimedes e Calisto. Nós fomos do pensamento de que o oceano da Terra é único para o de que nosso oceano pode ser um de muitos.

Nós também aprendemos que a Terra abriga uma biosfera subsuperficial profunda e que a massa de microrganismos sob nossos pés, alcançando quilômetros nos subterrâneos, provavelmente iguala ou excede a massa de todos os organismos na superfície da Terra. Esta é uma cena dramaticamente diferente da vida terrestre que aquela que experimentamos diariamente e faz a especulação sobre a vida subsuperficial em Europa ou vestígios de vida em Marte parecerem muito mais críveis. Nossa compreensão da Terra ajuda a moldar nosso pensamento sobre outros mundos e vice-versa.

A perspectiva de se encontrar vida em qualquer outro lugar parece melhor que nunca. Mas precisamos lembrar que perspectivas não são prova e pode ser possível que a Terra seja o único planeta onde a vida existe. Isto pareceria extraordinário e eu duvido que seja provável em uma galáxia com 400 bilhões de estrelas, mas a resposta honesta é que nós ainda não sabemos. Mas podemos usar a exploração científica para testar e descobrir.

O Instituto SETI – Search for Extraterrestrial Intelligence (Busca por Inteligência Extraterrestre) é um instituto científico privado dedicado à pesquisa, educação e extensão ao público. Sua missão é usar os métodos científicos para investigar a origem, natureza e prevalência de vida no Universo. Cientistas do Instituto SETI investigam tudo da formação de estrelas e planetas até o desenvolvimento de civilizações tecnicamente avançadas. Os tópicos de pesquisa incluem, por exemplo, química orgânica interestelar, formação planetária, a busca por planetas extrassolares, a química da origem da vida, microbiologia e vida em ambientes extremos, climatologia planetária e habitabilidade, Marte e Europa e o papel dos impactos de asteroides e cometas na história da vida na Terra.

Entendendo os muitos fatores que fazem um mundo habitável para a vida complexa, podemos colocar a busca por civilizações extraterrestres em contexto. Por exemplo, aprendendo mais sobre a história de vida na Terra, podemos tentar traçar os eventos que levaram ao desenvolvimento da inteligência. Mas não sabemos se a evolução da inteligência técnica do estilo humano é algo que se provará ser incrivelmente raro ou comum. Encontrar evidência para tal inteligência em outro lugar teria um profundo efeito na humanidade.

VLA
O radiotelescópio Arranjo Muito Grande (VLA) é usado pelo SETI para ouvir sinais de rádio artificialmente produzidos outros sistemas estelares lá fora.
Credit:NRAO

Um dos projetos mais conhecidos do SETI é a busca por sinais de rádio artificialmente produzidos na vizinhança das estrelas mais próximas. Muitos objetos naturais no Universo produzem ondas de rádio (incluindo nosso próprio Sol), mas nenhuma fonte de ocorrência natural no Universo se sabe produzir larguras de banda menores que 300 Hz (Hertz, uma medida da freqüência igual a um ciclo por segundo). Então o primeiro critério de um sinal artificial é uma largura de banda espectral bem estreita. De fato, procuramos por larguras de banda abaixo de aproximadamente 1 Hz em largura. Este comprimento de onda do sinal é extremamente preciso e altamente eficiente, pois sinais de banda estreita guardam um monte de energia em uma pequena quantidade de espaço espectral. Qualquer objeto produzindo larguras de banda extremamente estreitas é artificial ou representa algum fenômeno astrofísico inteiramente desconhecido.

Para dar alguma ideia de quão sensíveis nossas buscas de rádio são, vale mencionar que temos por muitos anos testado nosso sistema usando o sinal transmitido pela espaçonave Pioneer 10 (Pioneira 10), lançada da Terra em 1972 e que agora está viajando além do nosso Sistema Solar. A Pioneer 10 está a uma distância de 6 bilhões de milhas (mais de 9,6 bilhões de quilômetros) da Terra e transmitindo com o poder de uns poucos watts – muito menos que uma lâmpada elétrica na sua casa, mas com aproximadamente a força de uma pequena lanterna. Leva mais de 10 horas para um sinal de rádio da Pioneer 10, viajando à velocidade da luz, para alcançar a Terra. Porque a Pioneer 10 é uma fonte extraterrestre (até extra-Sistema Solar!), ela provem um excelente teste para o nosso sistema – e ele vem alto e claro.

Uma vez que o SETI obtém tanta atenção da mídia, é fácil pegar a falsa impressão que os pesquisadores do SETI já procuraram pela galáxia inteira por sinais de rádio alienígenas e ainda não acharam nada. Mas de fato, nós apenas examinamos aproximadamente um bilionésimo da galáxia até agora. Nós estamos olhando para as milhares de estrelas semelhantes ao Sol mais próximas que estão dentro de uns 150 anos-luz da Terra. Esta é apenas uma pequena fração da galáxia da Via Láctea inteira, que contém umas 400 bilhões de estrelas e tem 100.000 anos-luz transversalmente.

Mesmo se sinais alienígenas forem detectados algum dia, é improvável que um diálogo interestelar ocorra, exceto ao longo de escalas temporais extremamente longas. Se detectarmos um sinal de uma estrela 100 anos-luz distante, esta mensagem foi enviada 100 anos atrás – então esta comunicação de duas vias requereria 200 anos para cada resposta.

É bem possível que enquanto podemos detectar a onda carregadora do sinal, podemos não ter a sensibilidade de detectar qualquer mensagem que possa ser carregada por esta onda. Mesmo se pudermos, é difícil de prever quão difícil a decifragem se provará ser. Uma possível analogia pode ser a decifragem de inscrições deixadas pelos antigos maias, que se provaram extremamente difíceis. Mesmo neste caso, tivemos a vantagem de ser capazes de aplicar o conhecimento de lingüística de linguagens maias sobreviventes. E é claro, nós compartilhamos uma herança genética e sociológica com qualquer outra cultura humana que não compartilharemos com uma civilização extraterrestre. Contudo, se detectarmos um sinal de rádio extraterrestre, teremos pelo menos em comum a física e matemática que tornaram aquela transmissão possível, e este pode ser um ponto inicial.

Europa
T Os objetivos do Instituto SETI se encaixam naturalmente com os objetivos do programa de astrobiologia da NASA.
Crédito: NASA

A busca científica por inteligência extraterrestre goza de grande interesse público. Nós vemos isto todo dia no instituto, onde servimos como uma fonte para a imprensa cobrindo tópicos sobre os estudos da extensão da vida no Universo. Nossa página virtual (www.seti.org) recebe aproximadamente dois milhões de acessos por mês. Vemos este tipo de interesse como uma tremenda oportunidade de ensinar estudantes e o público em geral sobre ciência e o método científico – esta mistura de abertura a novas ideias combinada com uma insistência em evidências sólidas e análise cética dos dados.

Os objetivos do instituto SETI se encaixam naturalmente com as questões fundamentais no coração do programa de astrobiologia da NASA: “A vida existe em qualquer outro lugar do Universo, ou estamos a sós?” e “Qual o futuro da vida na Terra e além?”. Se quaisquer outras civilizações inteligentes existem em outro lugar é uma extensão natural destas questões. A investigação cientifica destas questões é excitante, inspiradora e eventualmente pode ajudar a humanidade a encontrar seu lugar no Universo.

This article was originally published in English.

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