Serendipidade Agitada do SETI@home

Depois da computação de mais de um milhão de anos de dados em mais de 4 milhões de computadores em todo o mundo, o SETI@home (SETI em casa), que processa dados em busca de sinais inteligentes do espaço, produziu uma lista de fontes de rádio que merecem uma segunda olhada.

Três membros da equipe do SET@home irão para Porto Rico este mês para apontar o radiotelescópio de Arecibo para até 150 lugares identificados como fonte de possíveis sinais de civilizações inteligentes.

Arecibo Telescope
Arecibo. A maior antena de um radiotelescópio do mundo. Porto Rico.

O SETI@home é um programa de computador disfarçado como um protetor de tela que aciona (pop up) subitamente quando o computador está ocioso e analisa dados de radiotelescópios em busca de sinais fortes ou não usuais do espaço. Os candidatos para re-observação são sinais particularmente fortes ou que foram observados no mesmo lugar mais de uma vez, alguns deles 5 ou 6 vezes.

“Isto é resultado de mais de três anos de computação, a maior computação já feita”, disse o cientista computacional da UC Berkeley (Universidade da Califórnia em Berkeley) David Anderson, diretor do SETI@home. “Isto é um marco para o projeto SETI@home”.

Usuários do SETI@home devem saber os resultados das re-observações – o que a Planetary Society (Sociedade Planetária), a financiadora e principal patrocinadora do SETI@home está anunciando como a “contagem regressiva estelar” em dois ou três meses.

Embora animado com a oportunidade de re-observar os cerca de 150 sinais candidatos, Anderson está cauteloso sobre o aumento das expectativas das pessoas de que elas descobrirão um sinal de uma civilização extraterrestre.

“Se houver qualquer possibilidade de encontrarmos um sinal extraterrestre, é provavelmente muito menor que um por cento”, ele afirmou.

Fazer Serendipidade

Star field
Em um universo repleto de estrelas, será que a vida não existe em nenhum outro lugar?
Crédito: NASA/STScI/ESA

O físico Dan Werthimer da UC Berkeley, cientista-chefe do SETI@home, também não está ampliando suas esperanças. Ele conduziu o Search for Extraterrestrial Intelligence – SETI (Busca por Inteligência Extraterrestre) por 24 anos – 11 anos usando a antena de rádio do Arecibo com 1.000 pés (305 m) de diâmetro – e voltou várias vezes para olhar novamente para as localidades e faixas de freqüência mais promissoras para determinar se um sinal de rádio forte é mais que ruído aleatório, uma falha ou um satélite passando. Ele se desapontou todas as vezes.

Por outro lado, o SETI@home tem mobilizado um poder computacional tão maior do que já foi usado na análise de sinais, que a equipe tem sido capaz de realizar cálculos muito mais detalhados e complexos nos dados de rádio, que agora são possíveis com o projeto SETI de Werthimer em curso, chamado SERENDIP IV – Search for Extraterrestrial Radio Emissions from Nearby Developed Intelligent Populations (Busca por Emissões de Rádio Extraterrestres de Populações Inteligentes Desenvolvidas Próximas).

“Eu dou uma chance em 10.000 de que um dos sinais candidatos se mostre ser de ETs”, disse Werthimer, que irá para Porto Rico em 16 de março.

“Tenha ou não o SETI@home sucesso em encontrar evidência de inteligência extraterrestre nesta etapa inicial, o projeto já fez história”, afirmou Bruce Murray, presidente da direção da Sociedade Planetária. “O SETI@home realizou a mais sensitiva e detalhada inspeção SETI do céu até hoje, demonstrou o poder da internet para fazer computação científica distribuída e permitiu ao público em geral participar diretamente em um excitante projeto de pesquisa.”

Para reconhecer os mais de 4.287.000 usuários que analisaram dados de rádio, a equipe do SETI@home irá postar em sua página virtual os nomes daqueles participantes que apontaram os sinais candidatos com resultado da análise de dados em seus computadores pessoais. Cada sinal candidato foi analisado por várias pessoas, porque o SETIhome envia os mesmos dados para mais de uma pessoa para re-checar os resultados.

A lista de candidatos é bem maior que 150, mas Werthimer suspeita que 150 é o máximo que ele e dois colegas serão capazes observar durante as 24 horas totalmente disponíveis a eles no Arecibo Observatory (Observatório de Arecibo) entre 18 a 20 de março. O critério para inclusão nesta lista inclui não apenas um forte sinal de rádio e um sinal observado mais de uma vez no mesmo lugar e faixa de freqüência, mas também a proximidade do sinal de uma estrela conhecida e se é sabido que a estrela possui planetas.

O Seu Ruído não é o Ruído Deles

“Estes fatores nos permitem estimar a probabilidade do sinal ser um ruído”, afirmou Anderson. “Estamos interessados nos candidatos que são menos prováveis de ser ruído”.

Uma análise parcial dos sinais será feita enquanto a equipe coleta os dados, de modo que as observações podem ser pardas e repetidas se um sinal muito forte reaparecer. Werthimer será auxiliado pelo estudante de pós-graduação Paul Demorest e o project scientist Eric Korpela.

The TPF
O Terrestrial Planet Finder (Localizador de Planetas Telúricos) irá procurar por planetas semelhantes à Terra orbitando 250 das estrelas mais próximas.
Crédito: NASA.

Uma análise mais detalhada será conduzida mais tarde, contou Anderson, idealmente com uma nova versão do protetor de tela do SETI@home baseado em uma recém distribuída plataforma de computação chamada BOINC – Berkeley Open Infrastructure for Network Computing (Infra-estrutura Aberta de Computação em Rede Berkeley).

O SETI@home ofereceu seu protetor de tela ao mundo em maio de 1999 como o primeiro exemplo de uma computação distribuída em ampla escala – ligando computadores ociosos através da internet para resolver grandes problemas computacionais. A chave para o seu sucesso foi a frutífera colaboração entre Anderson, um cientista da computação que foi um dos principais desenvolvedores da computação distribuída e Werthimer, um físico com duas décadas de experiência em coletar dados de rádio e analisá-los em busca de sinais incomuns vindos do espaço.

Juntos, eles têm atraído não apenas fãs de ficção científica e geeks de computadores, mas muitos outros interessados em oferecer o uso de seu computador para beneficiar projetos importantes. O SETI@home originou numerosos outros projetos de computação distribuída, incluindo o “Folding@home” para calcular a estrutura tridimensional de proteínas e o “climateprediction.net” para melhorar as previsões científicas sobre o clima do século 21.

No entanto, cientistas interessados em lançar projetos similares têm sido intimidados pelo tempo e dinheiro necessários para criar o software. Para resolver este problema, Anderson desenvolveu o BOINC, que é financiado pela National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciências dos EUA). Além de ser uma plataforma de uso geral, ela permite aos usuários separar o tempo de seu computador entre diversos projetos de computação distribuída.

“O BOINC deixa fácil para cientistas criarem novos projetos como o SETI@home e atualizar seus aplicativos sem parar”, ele afirmou. “Cada mudança no SETI@home requeria que todos os nossos usuários baixassem e instalassem uma nova versão do programa, mas o BOINC administra este processo sem intervenção do usuário”.

O BOINC também tem a capacidade de armazenar dados no espaço de disco livre dos participantes, muito parecido com o modo que o Napster, Gnutella e Kazaa tiram vantagem dos discos rígidos de PCs para armazenar arquivos de músicas em MP3.

“A quantidade de espaço de disco livre lá fora é surpreendente”, contou Anderson. “O BOINC nos permitirá experimentar novas formas de lidar com dados, como enviando-os através de conexões de alta velocidade de internet direto dos telescópios para os PCs e arquivando-os de forma redundante em discos de PCs.”

SETI@home screen shot
O SETI@home usa o tempo ocioso de mais de três milhões de computadores pessoais para vasculhar dados de rádio por sinais de civilizações extraterrestres.
Crédito: SETI@home.

O estudo de caso para o BOINC é o Astropulso, que é designado especificamente para re-examinar dados do SETI@home em busca de pulsos curtos de rádio, algo que nem o SETI@home ou qualquer outro projeto SETI atualmente pode fazer muito bem. De acordo com Werthimer, o Astropulso pode detectar pulsares, que piscam por períodos de até quase um milissegundo; buracos negros evaporando, que deveriam emitir um rápido pulso de ondas de rádio enquanto eles deixam de existir; assim como mensagens de extraterrestres.

O Que Vem Depois

“O astropulso será o primeiro grande teste do BOINC”, que também provém avançados e mais realísticos gráficos em 3-D, disse Anderson. “Se tivermos talvez 1.000 pessoas participando da primeira tentativa do BOINC, poderíamos analisar os dados da re-observação em apenas alguns dias”.

“Esta é toda uma nova maneira de procurar por ETs”, afirmou Werthimer.

Ele e Anderson enfatizam que mesmo as re-observações sendo o culminar de quase quatro anos de processamento de dados, o SETI@home não está chegando a um fim. Werthimer espera criar através de um programa SETI no Hemisfério Sul no Parkes Observatory (Observatório Parkes) na Austrália, dados para alimentar o SETI@home. E os dados ainda vêm dos instrumentos SERENDIP IV na antena do Arecibo, que irá em breve usar receptores melhorados para registrar dados de mais de uma área do céu de uma vez.

“Este é um marco, mas o SETI@home continuará”, contou Anderson.

Além da Sociedade Planetária, outros grandes financiadores incluem a Sun Microsystems, a University of California (Universidade da Califórnia), Quantum Corp, Produtos para Computadores e Equipamentos de Rede Fujifilm.

This story was originally published in English.

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